Crítica: Anomalisa

Por Amanda Mascarenhas

FICHA TÉCNICA

Direção: Charlie Kaufman, Duke Johnson
Roteiro: Charlie Kaufman
Elenco: David Thewlis, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan
Gênero: Animação
País: Estados Unidos
Duração: 1h30min
Lançamento: Dezembro de 2015

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Segundo longa-metragem de Charlie Kaufman (em parceria com Duke Johnson), roteirista responsável por filmes como “Quero Ser John Malkovich” (1999), “Adaptação” (2002) e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” (2004), “Anomalisa” (2015) é uma animação em stop-motion que tem como foco a crise existencial do protagonista Michael Stone.

Michael (dublado por David Thewlis) é um famoso escritor que vai para a cidade de Cincinnati para palestrar sobre as ideologias de seu livro sobre atendimento ao cliente. No hotel em que se hospeda, ele reencontra uma pessoa do passado, um antigo relacionamento, e, por acaso, acaba conhecendo uma mulher diferente de todas as outras: Lisa (dublada por Jennifer Jason Leigh), uma mulher com alguns problemas de personalidade por quem Michael se apaixona perdidamente.

No processo de transformar seu público através de seus livros e palestras motivacionais, a vida de Michael tornou-se oca e sem sentido, na medida em que ele questiona o contexto em que vive e sua própria identidade na parcela inicial do filme. Sua existência monótona se traduz ao seu redor, em um mundo onde todos foram condicionados a parecerem iguais e terem os mesmos pensamentos.

Aos olhos do protagonista, todos os personagens do filme, com exceção do próprio e de Lisa, têm a mesma voz (dublada por Tom Noonan) e o mesmo rosto andrógeno. Para Michael, todos são peças idênticas, superficiais, tediosas e descartáveis, exceto Lisa, que como o título da animação demonstra, é a anomalia (Anomalia + Lisa = Anomalisa) naquele momento de sua vida.

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Este aspecto do filme pode explicar o porquê da opção de Kaufman por transcrever sua peça de 2005 e o mundo desanimado de Michael em um longa de animação. Um filme em live-action talvez não traduziria com tanta perfeição a provável Síndrome de Fregoli, transtorno no qual a pessoa acredita que todas outras pessoas do mundo modificam sua aparência para parecer outras, sofrida pelo protagonista.

O filme não chega a confirmar tal condição, mas ela pode ser facilmente inferida através da persistente ideia de perseguição que aflige Michael por toda a trama, desde o passageiro que segura sua mão no voo de avião, ao taxista que repete inúmeras vezes os passeios que ele deve fazer na cidade e o funcionário do hotel que repete seu nome ao menos três vezes, além da ilusão (ou seria desejo?) de que toda a equipe do hotel estaria apaixonada por ele.

“Anomalisa” é uma forte metáfora sobre a mesmice da vida moderna, uma das causadoras do grande mal-estar contemporâneo, a depressão, e não entrega, com razão, uma solução ou desfecho para o vazio de Michael, o que é esperado pelo público da maioria dos filmes. A suposta falta de uma conclusão se justifica numa ressignificação da máxima “a vida imita a arte”.

Em “Anomalisa”, a arte imita a vida, na medida em que tudo é muito simples, comum e ordinário, o ambiente, a animação, os personagens, os diálogos. Tudo faz gerar uma identificação quase que imediata e praticamente universal com o que acontece na trama. Da mesma forma que frequentemente fingimos não existir aquilo que nos faz mal, ao final do filme, Michael deixa toda a vivência e tentativas de reflexão e mudança de sua viagem para trás. A melancolia que o aflige permanece, no aguardo de outras situações que tirem o personagem novamente de sua zona de conforto e lugar comum, novas anomalias.


Texto originalmente escrito para trabalho da disciplina “Jornalismo Cultural”, do oitavo período de Jornalismo da PUC Minas

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