Ricardo Parreiras: lenda viva do Rádio Mineiro

Por Amanda Mascarenhas, Flávia Drummond e Renata Cló

“Eu não tenho idade, tenho vida”

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No dia 17 janeiro de 1928, na pequena cidade do interior de Minas Gerais, Bonfim, nasceu José Parreiras de Oliveira, caçula dos três filhos de Augusta. Ninguém imaginava que naquele dia de verão um dos maiores nomes do rádio brasileiro havia nascido.

Hoje, aos 88 anos, conta que quando menino não tinha rádio em casa porque sua família era muito pobre, mas sempre arrumava um jeitinho de escutá-lo. Ia para casa dos amigos e vizinhos que possuíam o aparelho. Ricardo Parreiras, como é conhecido hoje, fala entusiasmado e com sentimento nostálgico de como o aparelho radiofônico era importante e valioso. Segundo ele, o artefato era enorme e ocupava o lugar mais importante da casa: o centro da sala de estar. Na casa do vizinho o rádio era enfeitado com uma jarra de flores em cima. Nos fins de tarde a sua programação era ir para casa dos amigos para escutar “A Hora do Fazendeiro”, programa de rádio que está no ar até hoje na Rádio Inconfidência. Mal sabia ele que o seu destino o levaria até lá, do outro lado do rádio.

Parreiras conta que os cantores que faziam sucesso na época eram Francisco Alves, Carlos Gallardo, Dalva de Oliveira, entre outros. Mas um deles o encantava mais. “Me apaixonei pela voz de Orlando Silva, era um cantor romântico. E eu nasci romântico! Ficava imaginando ‘como deve ser a vida de Orlando Silva, como ele é?’. E não é que no andar do tempo, vim a conhecer Orlando Silva? Cheguei, até mesmo, rodar a cidade com ele e levá-lo ao Mercado Central para comprar queijo”.

Desde a infância, Ricardo era escolhido para fazer discursos, cantar e declamar poesias na escola. Ele afirma que nunca se esqueceu da sua primeira professora: Dona Ilda. Ela o adorava e o incentivava muito. “Desde pequeno já era comunicador”, conta.

Aos 10 anos, Parreiras precisou deixar Bonfim e partir para a cidade grande com sua família. Tiveram que ir para Belo Horizonte ganhar a vida, pois na cidade pequena estava difícil. Ricardo fala que seu pai vendeu a casinha que moravam em Bonfim e comprou uma banca de frutas no mercado, em BH. E todos da família tiveram que trabalhar. A partir daí, Parreiras já não pode mais estudar, pois precisava ajudar, também, a sustentar os pais e os irmão. Parreiras já fez de tudo: trabalhou com seu pai no mercado, vendeu mexericas nas ruas do bairro Barro Preto, foi ascensorista de elevador, entre outros.

O até então Zé Parreiras trabalhou também em uma companhia de seguros chamada Sulamérica, onde era office-boy. Era preciso chegar bem cedo na empresa, pois tinha que fazer limpezas nos escritórios, antes dos funcionários chegarem. Sempre esperto, aproveitava o acúmulo de papéis que iriam para o lixo e os juntava para vender e, no fim de semana, poder ir ao cinema. “Desde muito cedo aprendi a ganhar dinheiro para poder sobreviver”.

Sempre muito feliz e risonho, Parreiras tinha, e ainda tem, muitas amizades. Na Sulamérica, no fim do expediente gostava de “jogar conversa fora” com os colegas de trabalho. “E um dia em uma brincadeira, cantei uma música e todos gostaram. Então, um companheiro de trabalho, Jonas Raje, falava que eu deveria ir cantar nos programas de calouros que havia nas rádios. Um deles era o “A Hora da Corneta”, na Rádio Mineira. Era um programa animado por Waldomiro Lobo. Foi a primeira rádio de Minas Gerais. Você se inscrevia e se cantasse bem ia até o final. Mas, se desafinasse, a corneta tocava e as pessoas vaiavam. Então, Jonas me convenceu e me levou até lá. Apesar da vergonha, fui. Devo muito a minha vida profissional ao Jonas”, declara Parreiras.

Para ir ao programa era necessário escolher uma música. Parreiras, muito ousado, escolheu “Granada”, de Agustín Lara, cantor mexicano. Parreiras estudou somente até aos 10 anos, mas sempre foi muito sábio. A vida lhe ensinou a ser esperto e corajoso. “Eu escolhi a música, mesmo sem saber falar a língua. Peguei um papel e escrevi a canção, como ela era pronunciada. Já fiz isso com música francesa, italiana e espanhola”. Nesse momento, durante nossa entrevista, Parreiras fez uma pausa e canta trecho, em francês, de música de Édith Piaf.

“E então, fui ao programa ‘A Hora da Corneta’. Estava muito ansioso, tinha certeza de que seria ‘cornetado’. Foi aí que me chamaram: ‘E agora, com vocês: José parreiras”. Entrei no palco, o pianista começou, olhou para mim e eu comecei: ‘Granada, tierra soñada por mí. Mi cantar se vuelve gitano cuando es para tí….’ Fui cantando esperando a corneta tocar, meus joelhos tremiam, estava com muito medo, pensando que estava cantando mal. Fiquei esperando a qualquer momento a corneta tocar. E não tocou!! Cheguei até o final! O auditório começou a aplaudir e Waldomiro lobo falou: ‘Palmas para Zé Parreiras! Acaba de surgir o novo astro do cenário radiofônico de Minas gerais’”.  Orgulhoso, com sorriso estampado no rosto, Parreiras conta que ganhou o prêmio: um corte de gazimira (pano para fazer terno), um pacote de macarrão e uma garrafa de vinho. Para ele aquele momento foi muito emocionante. Segundo ele, quando chegou em casa sua mãe o esperava chorando, emocionada, pois havia escutado todo o programa. Ele fala que até mesmo seu pai, que era um homem muito sério disse: “estava danado de bom”.

Esse momento foi crucial para que a vida de Parreiras mudasse. Ele se entusiasmou com aquela história de cantar e foi até a maior rádio de Minas na época: a Inconfidência. Lá ele procurou o professor Elias Salomé que tinha um programa amador, semanal, chamado “Escola de Rádio”. José Parreiras se inscreveu no programa e, durante seis meses, cantou sem ser remunerado. Mas, segundo ele, ganhou ensinamentos: de como respirar melhor para cantar, como utilizar a voz, como trabalhar o diafragma. No fim desse semestre, houve uma seleção interna e ele ganhou. A partir daí foi chamado para assinar contrato com a Rádio Inconfidência.

“No momento de assinar o contrato, Paulo Nunes Vieira, que fazia parte da comissão da rádio, perguntou o meu nome, e eu disse: José Parreiras. Ele fez uma cara ruim e falou: Zé Parreiras não é nome de artista. Não é um nome bonito. No rádio tem que ter o nome mais bonito, chamativo. E você é um cantor romântico”. Naquele momento, Paulo Nunes começou a fazer uma série de testes com os nomes: Roberto Parreiras, Júlio Parreiras, Antônio Parreiras, etc. Até chegar em “Ricardo Parreiras”. “Nessa época esse nome fazia muito sucesso, pois existia um ator de cinema hollywoodiano que chamava Ricardo Montalbán. E eu gostava dele. Era bonito, cantava também, artista de cinema. Gostei do nome!! Então, a partir daquela data, me chamei Ricardo Parreiras”, afirma Ricardo com orgulho.

Foi assim que Parreiras entrou no mundo do rádio e não saiu mais. Para falar a verdade, o rádio é que não saiu mais dele. O radialista, além de cantar, ainda apresentou programas culturais, policiais, humorísticos e passou por quase todos os setores da emissora.  Entusiasmado, afirma: “Eu acho o rádio a maior invenção do homem. Com uma vantagem: não tem imagem.” Parreiras explica que o rádio está em todos os lugares, pode ser de todos os tamanhos e também pode estar disponível até no relógio ou no celular. Além disso, o radialista acredita muito no poder da imaginação ao ouvir rádio, apesar de reconhecer as mudanças que vieram após a chegada da televisão. Ele avalia que a rádio broadcast das antigas não existe mais. Não houve mais orquestras e artistas fazendo performances ao vivo e a tecnologia (LPs, fitas, CDs, etc) passou a tomar conta do dia a dia das rádios.

Ainda assim, o amante das músicas do passado relembra os tempos duros, de ditadura, que presenciou já como radialista. Na época, ele apresentava um programa de humor e conta que tinha que levar o texto em um prédio da Polícia Federal que ficava na Rua dos Guajajaras para avaliação da censura. Em relação as músicas consideradas subversivas, não se podia selecionar as canções de Chico Buarque, Gilberto Gil e alguns outros artistas que foram viver em exilio durante aquela época. “Quando não podia tocar alguma música, eu não tocava, eu ficava quieto. Eu ia ser preso, torturado?”, diz.

Mesmo assim, Parreiras é um verdadeiro saudosista. Amante das velhas valsas, boleros e canções que marcaram outras épocas, ele é firme com as músicas atuais. “Qual é a música de hoje em dia? É essa música que eles fazem lá na Bahia…Não tenho nada contra o baiano não. Mas antigamente, nos anos dourados, eles faziam música mesmo, como Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Cartola, Herivelto Martins, Wilson Miranda. Você pega as músicas de antigamente e elas tinham um enredo, uma história, eram um poema.”

Entre críticas duras aos hits de carnaval, ao sertanejo universitário e ao axé, a nostalgia é o que parece conectar Parreiras com seus ouvintes. Atualmente, o radialista apresenta o programa “Clube da Saudade” que vai ao ar na AM todas as noites e é cheio de textos românticos e dos sucessos das antigas. Assim, o radialista conquista vários ouvintes da terceira idade que ainda o escrevem, seja por cartas ou por e-mails. O locutor se gaba pela sua relação verdadeiramente especial com os ouvintes: “Tenho mais de 1800 ouvintes cadastrados aqui. Recebo carta, email, telefonema…do jeito que chegar será sempre bem-recebido. Tem até ciúme entre os ouvintes. Tenho que fazer um rodízio na hora de mandar abraços no ar, durante o programa”. Parreiras afirma que o rádio facilita a formação de vínculos de amizade e se orgulha em dizer que tem o “salutar hábito de colecionar amigos”.

A ouvinte Ângela, que escuta Parreiras religiosamente de Esmeraldas, quando a má qualidade das ondas AM lhe permite, confirma a boa fama de Parreiras: “Ele é uma pessoa maravilhosa, sempre me atendeu com muito carinho. Quando o rádio não pega e não consigo ouvir o programa, eu fico sem chão”. Os colegas da Inconfidência também não poupam elogios ao locutor. Paulo Bastos, coordenador de FM da rádio, trabalha há 29 anos com Parreiras e vê nele um irmão: “Em 29 anos, nunca tivemos uma discussão, tudo flui naturalmente com alegria, sinceridade, respeito e transparência”. Regina Palla, locutora e noticiarista, o considera uma referência: “Ele é um dicionário ambulante, é uma lenda viva. Não só da história da Rádio Inconfidência, como da história do rádio em geral. É tudo de bom trabalhar com ele”.

Mesmo aqueles que já não estão mais na Inconfidência lembram com carinho dos ensinamentos de Parreiras. Joel Fagundes Moura, ex-produtor, o descreve como uma figura ímpar, que nunca estava de mau-humor e era sempre alegre, brincalhão e sorridente. “Como diz aquele ditado, ‘junte-se aos bons e serás um deles’. Tive o prazer de trabalhar com uma pessoa que realmente marcou o rádio. É um aprendizado, uma escola. Embora eu esteja um pouco afastado dessa área, quem sabe amanhã possa ter mais aulas com ele. Eu sei que ele tem muito mais coisas para me ensinar”.

E se depender de Ricardo Parreiras, muitos ainda terão o prazer de aprender com ele, já que a aposentadoria definitivamente não está em seus planos.

“No rádio é tudo plugado, o computador é plugado, a impressora é plugada, o microfone é plugado. Eu sou tão antigo na rádio que também estou plugado! Então eu vou trabalhando. Enquanto a direção permitir, enquanto eu estiver agradando, enquanto eu tiver força, eu vou trabalhando. Eu me sinto bem, apesar da idade, eu me sinto jovem. O rádio é uma cachaça, você começa e não para. A melhor coisa que tem é fazer aquilo que você gosta. Eu faço o que eu gosto. Quando Deus achar que está na hora, ele puxa o fio, me despluga e eu subo.”

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Texto originalmente escrito para trabalho da disciplina “Jornalismo Cultural”, do oitavo período de Jornalismo da PUC Minas

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