Latitudes: narrativa de (des)encontros

Por Amanda Mascarenhas e Renata Cló

Relação em não lugares

Para o casal José e Olívia, personagens interpretados por Daniel de Oliveira e Alice Braga que estrelam o filme “Latitudes” (2015), do diretor Felipe Braga, a globalização não foi um obstáculo. Ao contrário, a globalização os uniu. No filme, para o renomado fotógrafo, José, e para a famosa editora de moda, Olívia, viajar parece determinar suas vidas. E assim, “casa” para eles é um lugar não assumido, que faz com que qualquer ponto do mundo seja um destino fácil para encontros e reencontros que criam uma espécie de relação em não lugares, reflexo contemporâneo de vidas fragmentadas em tarefas, em que sensações e emoções nunca são plenas.

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Os personagens têm seu primeiro encontro em Paris, onde passam a noite juntos no quarto de hotel de Olívia, o que aparentava ser apenas uma “relação” espontânea de uma noite. No dia seguinte, eles tentam se descobrir, se interpretar. Logo é possível perceber que o relacionamento dos dois parece ser marcado por distâncias curtas, embora fisicamente longas, no sentido de que José e Olívia têm grandes dificuldades de permanecer longe um do outro depois de seu primeiro reencontro, acidental e ocorrido em Londres.

Na capital inglesa, o casal tece considerações sobre sua primeira noite e discute se vale a pena continuar a se ver. No encontro seguinte, orquestrado por Olívia em Veneza, José mostra-se interessado em manter os encontros, enquanto ela demonstra acreditar que tudo não passa de um caso informal de algumas noites. Ainda assim, combinam de se encontrar novamente, em breve.

Em José Ignácio, percebe-se que o encontro é mais íntimo. Olívia admite a ansiedade pela espera e medo pela expectativa do momento. Na cidade uruguaia acontece a primeira discussão do casal. Há um sentimento mútuo de cobrança e tentativa de velá-la. Conclui-se que a relação deles é uma segunda vida, um mundo separado dos em que eles vivem quando não estão juntos. Um mundo só deles. José e Olívia questionam: estarão eles realmente vivendo um relacionamento? Ou seria aquilo mera ilusão?

Se mergulha, em seguida, na primeira vida de José, no seu mundo, na sua não-casa em São Paulo. Ele tem uma namorada, a quem conta sobre o caso com Olívia, e demonstra que não foi algo sem importância. A partir daí e do encontro seguinte, em Porto, os dois mundos, antes distintos, começam a colidir e a se misturar. José é corajoso em se revelar, em mostrar seus sentimentos, ainda que essa coragem possa ser facilmente confundida, ou associada, com impulsividade: “sai da sombra, para de se esconder no escuro”, ele diz para Olívia.

A editora de moda segue sozinha pra Buenos Aires, onde mora em uma não-casa com seu marido. Diferente de José, Olívia não consegue dar vazão a sua própria vontade, ao menos não de modo pleno ou de maneira boa o suficiente para os seus próprios desejos. Apesar de negar com todas as suas forças, Olívia não consegue fugir de si mesma, da vontade de pertencer e de ter a posse de uma pessoa. O caso com José não é admitido com palavras, mas revela-se em seu incômodo silêncio. Por fim, o casal se encontra novamente em Istambul, primeiro local em que o relacionamento é demonstrado publicamente por caminhadas de mãos entrelaçadas. Afinal, teriam os dois mundos se tornado um só?

A imagem em “Latitudes”

Em relação a narrativa e as imagens do filme, o espectador vez ou outra sente certa dificuldade de localizar onde cada cena do filme se passa. Em muitas cenas são mostradas imagens gravadas em determinada cidade, enquanto o som é de as falas emitidas pelos personagens em outra localidade e momento do enredo, que repassam na cabeça de José ou de Olívia, como uma memória. Tal característica, além do fato de o filme viajar por oito lugares diferentes, torna a localização uma dificuldade ao espectador.

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Nesse sentido, o espectador tem a sensação de estar em vários lugares ao mesmo tempo, o que simboliza um pouco o relacionamento do casal. Enquanto Olivia está em qualquer lugar que seja, está pensando em José e a recíproca parece ser verdadeira para ele também. Na cena em que ele conversa com sua namorada em São Paulo, o personagem parece ter seus pensamentos na amante. Jacques Aumont (2004) ainda afirma que “as imagens do filme são meticulosamente compostas, e essa característica relaciona-se com o próprio estatuto da obra” (AUMONT, 2004, p. 112), sugerindo que o efeito catártico dessa estratégia também é uma visão de Felipe Braga.

Aumont (2004) afirma que “antes de ser um significante do ponto de vista das personagens (…), um enquadramento é também um significante do ponto de vista da instância narradora e da enunciação.” (AUMONT, 2004, p. 111). Em “Latitudes”, nas cenas em que o casal briga, o enquadramento é quase que exclusivamente feito em planos abertos, enquanto que nas cenas de sexo, os enquadramentos e planos são mais fechados. A partir deste pensamento de Aumont, podemos concluir que esses movimentos de câmera são estratégias para provocar sensações de proximidade e afastamento em relação ao público, em sincronia com os momentos vividos pelos personagens.

Aumont (2004) ainda menciona a importância da análise da montagem, que incluí eixo, luz, profundidade de campo, fixidez ou mobilidade. Observando-se então, a última cena do filme, que mostra como o casal se conheceu, em Paris, é possível identificar que as imagens começam em um plano fechado, com Olívia em frente a uma banca de jornais folheando uma revista e observando suas fotos. Escutamos uma música ambiente e aos poucos a imagem desfoca Olivia e começa a focar na rua. Em seguida, podemos enxergar um homem caminhando em direção à personagem, e quando ele chega mais perto, reconhecemos José, que quase passa direto por Olivia até ver o que a moça folheava.

A câmera, então, faz um close do ator, e em seguida, a câmera se afasta e José finalmente se aproxima de Olivia, momento em que o enquadramento muda e vemos a moça em plano fechado. A partir de então, a câmera reveza entre planos fechados de um e outro, e José fala: “Essa foto é minha.” Olivia fecha a revista que folheava e há um close em sua capa. A música continua, a câmera se afasta e o filme termina em um plano aberto dos dois em frente à banca. Apesar de ser noite, ambos os atores estão bem iluminados e não vemos sombras em seus rostos. Considerando-se que a imagem é o ponto de vista do diretor e que cada um desses detalhes tem o seu significado, entendemos, portanto, que o espectador interpreta a história a partir da visão de Braga.

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Narrativa transmídia

Franthiesco Ballerini (2012) afirma que o cinema brasileiro nasceu logo depois da criação dos irmãos Lumière na França, em 1895. Por uma série de fatores, entre eles o fato de Hollywood ainda não ter se tornado um monopólio e a regularização da distribuição de energia elétrica no Rio de Janeiro, o Brasil viveu seu primeiro grande ciclo de produção nacional entre 1907 e 1911. Nessa época, os produtores brasileiros puderam se tornar também exibidores e apenas mais tarde que “o cinema brasileiro apresentou durante o decorrer do século XX uma alternância de ciclos de alta e baixa produtividade, até praticamente morrer nos anos 1990.” (BALLERINI, 2012, p. 19).

Entretanto, houve uma retomada da produção de cinema brasileiro na segunda metade nos anos 1990 e que se intensificou a partir do início dos anos 2000. Isso se deu devido à vários incentivos governamentais, que tornaram o investimento na produção e distribuição de filmes menos arriscados. É importante mencionar também o papel da Globo Filmes em 1998, responsável por uma maior penetração do cinema nacional entre espectadores. Assim, o nível de investimentos voltou a subir em 1999, quando o governo federal criou um programa de financiamento em parceira com o BNDES e Ministério da Cultura, entre outros órgãos públicos, que destinou um crédito de 80 milhões de reais para viabilizar a produção de cerca de sessenta projetos até 2002. (BALLERINI, 2012).

Dessa forma, ainda de acordo com Ballerini (2012), o cinema brasileiro passou a ter maiores audiências, ter maior visibilidade e também a ser patrocinado por empresas além da estatal Petrobrás. Apesar de a indústria nacional de filmes ainda enfrentar grandes desafios, o cenário parece estar mudando: “As leis de incentivo ao cinema ainda estão muito longe de ser adequadas à produção cultural brasileira. Mas, como se vê, ainda assim o cinema nacional vem conseguindo realizar anualmente numerosas produções, o que pode ser encarado como sinal de avanço” (BALLERINI, 2012, p. 49).

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E é justamente neste cenário que o Brasil passa a ter mais uma grande inovação. O filme “Latitudes” faz parte do primeiro projeto transmídia do tipo no país, que desde o início foi pensado para ser um só produto a ser exibido em diferentes plataformas. O termo “transmídia” foi apresentado pelo professor de jornalismo, comunicação e cinema da Universidade do Sul da Califórnia Henry Jenkins, no livro Cultura da Convergência. Segundo Jenkins (2006), usar diversos meios para explorar a produção de conteúdo é uma tendência que abre novos modelos de negócio na área da cultura. “Se não se espalha, morre”, ele diz.

Assim como a trilogia Matrix (1999), destacada por Jenkins, “Latitudes” também elevou a narrativa ficcional a novos patamares, ao criar um universo ficcional que se inicia e se espalha na internet, vai para a TV à cabo e desemboca no cinema. A websérie teve oito episódios de quinze minutos em média, um para cada cidade, e em seguida, foi reeditada para a exibição na televisão, através do canal fechado TNT. Aos episódios exibidos inicialmente online, foram acrescidos alguns minutos de bastidores do mesmo.

Já o filme é uma compilação dos oito episódios com uma nova montagem para caber em 85 minutos. Para sua versão no cinema, a série ainda ganhou uma nova trilha sonora. “Latitudes” seria mais um projeto em que a linguagem da ficção casa com a documental para se criar um terceiro produto que, ainda que ficcional, incorpora muito do real.

Referências:

AUMONT, Jacques. MARIE, Michel. A análise do filme. Tradução Marcelo Félix. Armand Colin, 2004.

BALLERINI, Franthiesco. Cinema brasileiro no século 21: reflexões de cineastas, produtores, distribuidores, exibidores, artistas, críticos e legisladores sobre os rumos da cinematografia nacional. São Paulo: Summus, 2012.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2006.

Latitudes. Ficção, cor, 35mm, longa-metragem. Direção de Felipe Braga. Rio de Janeiro, 2014.

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Texto originalmente escrito para trabalho da disciplina “Cinema e Vídeo”, do sétimo período de Jornalismo da PUC Minas

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