O choque do real nas representações cinematográficas do sequestro do ônibus 174

Por Amanda Mascarenhas

Em 12 de junho de 2000, às 14h20m, no bairro Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro, Sandro Barbosa do Nascimento sequestrou um ônibus da linha 174 (Central-Gávea), mantendo reféns sob a mira de seu revólver por quase 5 horas. Transmitido nacionalmente ao vivo pela televisão, o caso foi retratado em 2002 no filme-documentário Ônibus 174, de José Padilha e Felipe Lacerda, e em 2008 na ficção Última parada 174, de Bruno Barreto, a partir da retomada da história de vida de Sandro.

Através de imagens do sequestro e depoimentos de vítimas e autoridades envolvidas, a narrativa do documentário Ônibus 174 revela como um típico menino de rua marginalizado tornou-se bandido e descreve os fatos acerca da ocorrência policial em si. Aos 8 anos de idade, Sandro presenciou o assassinato da mãe e passou a morar nas ruas, logo se envolvendo com drogas. Sobrevivente da Chacina da Candelária, foi detido diversas vezes em instituições socioeducativas e prisões e nunca aprendeu a ler e escrever.

Segundo a perspectiva de Aumont, o documentário é uma “máquina simbólica de produzir pontos de vista” (AUMONT, 2004, p. 77), neste sentido, Ônibus 174 busca retratar Sandro como vítima de uma sociedade que marginaliza e exclui, provocando a reflexão do espectador sobre a segurança pública ineficaz, a influência da mídia sobre o acontecimento e, principalmente, o descuido com a população marginalizada e como governo, sociedade e indivíduos contribuem para essa situação.

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Através de imagens fortes do sequestro e depoimentos impactantes dos envolvidos, que materializam a violência e a realidade social do Brasil, o documentário se insere no conceito de “choque do real”, a tentativa de se provocar um efeito catártico no espectador, com o objetivo de gerar incômodo e espanto, atiçar a denúncia social e desenvolver o pensamento crítico, desestabilizando a neutralidade do indivíduo (JAGUARIBE, 2007). Ônibus 174 representa o impacto do registro realista da violência e desigualdade social, e segundo Aumont (2002, p. 20), “reagimos diante da imagem fílmica como diante da representação muito realista de um espaço imaginário que aparentemente estamos vendo”.

Há no documentário vários elementos que contribuem para o registro da realidade periférica de Sandro do Nascimento, como a presença da Igreja Evangélica, a referência a presidiários, o uso de gírias, os empregos em postos subalternos, a invasão dos morros pela polícia, o futebol, os bailes funk e o rap. Aumont (2002, p. 90) afirma que a representação de um objeto demonstra o propósito de se dizer algo sobre ele e veicula para a sociedade uma gama de valores dos quais é representante. Neste sentido, qualquer objeto seria um discurso em si, podendo constituir-se, desta forma, em um estereótipo. É uma amostra social que se torna um iniciador de discurso, pois tende a recriar em torno dele o universo social ao qual pertence.

Tal qual em Ônibus 174, a tentativa de redenção de Sandro também se faz presente em Última parada 174, porém, com intenção mais evidenciada. O próprio trailer do filme comunica ao público seu princípio movedor, enunciando-o como janela para a realidade narrada, através da montagem que alterna fragmentos da filmagem e de imagens de arquivo da cobertura midiática do evento e do documentário de José Padilha. Ainda, uma voz narra de forma estética semelhante a narração em off dos documentários: “Nas ruas do Rio de Janeiro, Sandro do Nascimento sequestrou o ônibus 174…/ apenas com um revólver/ A imprensa contou todas as histórias/A dos reféns/Do capitão/ Dos atiradores/ De todo mundo…/Menos a de Sandro”.

Neste sentido, segundo Aumont (2009), a montagem interfere diretamente na narrativa e pode, por exemplo, mostrar o estado de espírito de uma personagem e por si só, narrar uma pequena história, conduzindo a construção de sentido que é estabelecida pelo espectador e que abrange vários contextos como o social, o institucional, o técnico, o ideológico, etc. Visto que o espectador constrói a imagem e vice-versa, ele se torna um parceiro ativo da imagem, que está, por sua vez, numa situação de mediação entre o espectador e a realidade, ao realizar a vinculação da imagem com o domínio do simbólico (AUMONT, 2009).

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A fotografia crua e despojada de Última parada 174 é outro aspecto de destaque na análise da imagem do filme. A câmera sempre muito próxima aos personagens dá sensação de intimidade e captura bem os dramas e narrativas, tendo os poucos planos gerais a função de permitir certo descanso psicológico ao espectador. Já a repetição dos enquadramentos das filmagens captadas no dia do sequestro pelas emissoras televisivas e o uso de câmeras de TV na cena do acontecimento reforçam a representação realista do acontecimento, além de fazer alusão ao formato documental de Ônibus 174. Foram utilizadas, ainda, tomadas aéreas e planos gerais extraídos das filmagens feitas pelas equipes de televisão no dia do sequestro.

Ambos os filmes buscam explicar os contextos e conjunturas que levaram ao sequestro do ônibus 174, no entanto, o fazem a partir de diferentes propostas. No documentário Ônibus 174, José Padilha desconstrói o evento específico e o aborda de forma mais abrangente, conferindo destaque aos participantes secundários e à cobertura da mídia. Por outro lado, em Última parada 174, Bruno Barreto desconstrói e explora a vida de Sandro, mergulha no personagem. Apesar das semelhanças, é a diferença na abordagem do acontecimento que faz dos dois filmes distintas representações cinematográficas do sequestro do ônibus 174.

Referências

AUMONT, Jacques. et al. A Estética do Filme. Campinas: Papirus, 2002.

AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas: Papirus, 1990.

AUMONT, Jacques. O Olho Interminável (cinema e pintura). São Paulo: Cosac&Naify, 2004.

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A Análise do Filme. Lisboa: Texto & Gráfica, 2009.

ENCICLOPÉDIA LIVRE, Wikipedia. Ônibus 174. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%94nibus_174&gt;. Acesso em: 15 mai. 2016.

ENCICLOPÉDIA LIVRE, Wikipedia. Sequestro do ônibus 174. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Sequestro_do_%C3%B4nibus_174&gt;. Acesso em: 15 mai. 2016.

ENCICLOPÉDIA LIVRE, Wikipedia. Última Parada 174. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%9Altima_Parada_174&gt;. Acesso em: 15 mai. 2016.

JAGUARIBE, Beatriz. O Choque do Real; estética, mídia e cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

Ônibus 174. Documentário, longa-metragem, cor, 35mm. Direção de José Padilha. Rio de Janeiro, 2002.

Última parada 174. Ficção, cor, 35mm, longa-metragem. Direção de Bruno Barreto. Rio de Janeiro, 2008.

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Texto originalmente escrito para trabalho da disciplina “Cinema e Vídeo”, do sétimo período de Jornalismo da PUC Minas

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